quinta-feira, 16 de março de 2017

Água, sabão e lágrimas
escorreram pelo ralo
Troquei de roupa
E não de alma
Andei trinta e dois metros
Não sete mil léguas
Porque o amor quando acaba
Não tem metáforas.


[ Mas quando acordei
  Você dormia ao meu lado
  Como o correr calmo de um riacho
  E o amor estava ali
  presente como o sol de cada manhã. ]

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

das maravilhas do amor

Eu poderia dizer

das maravilhas do amor
dos mecanismos do amor
das estruturas do amor

Romântico

Mas a respiração
explicada
enfada

Enquanto a pele
excitada
enxágua

domingo, 25 de outubro de 2015

O telefone, súbito inimigo
Comunica:
Minha mãe

A estrada é um calvário.

Morreu mais uma vez ontem
mais uma vez o leito, o protocolo
a espera

A cada hora uma martelada.

Mais uma vez hoje.
A falta, a saudade, a palavra

Paciente previamente hígida
Acidente Vascular Cerebral

E um silêncio estúpido
Porque não há o que

sexta-feira, 14 de agosto de 2015


2005
Amparada à minha mão que treme,
mais parece que a sua está dormindo.
Serve a nada o anel que agora veste
Vem da alma esse brilho reluzindo.

Em meu olhar insistem em ler contas
Direitos e saberes tão honrados
Vício inútil recriminar a minha roupa
Minha pele é só teu corpo estampado

Julgando o que é essência racional
Concluem que te aceito e tu me abrigas
De nós se mostram cegos, afinal
Na alma te suplico e me suplicas.


2005

Ciúme fincado
Garras
Longas marcas
Amarras

Silêncio
Calo
Limiar
Lamento

Eis em contornos nítidos
o impossível do amor.
2005

Tarde em vigília
Em todos os cantos
Procuro teu rastro

Ando na rua
Onde esteve um dia
A sua mirada

Volto sozinho
De novo criança
Contrariado

Em minha cama
Teu nome maldigo
Entre soluços

Desamparado
refaço os passos
de minha jornada

Em tua rua
Apenas lembrança
Em vão a espera

Montaste guarda
Toda a tarde
Em minha janela
1999
Lambia o meu cabelo o vento
Encantava
Rugia o mar fechado
Protestava
Futuro certo mesmo é que não vinha
Eu chorava.

(Só se o vento mudou teu rosto também).

2000
minha mão na sua mão,
nos damos o amor.

minha mão na sua mão,
nos damos ao amor.

meu azul no teu verão,
nos damos a tarde gigante

teu outono no meu azul,
nos damos um infinito.

meu azul no seu azul
nós somos o amor.
1999

Gostar de você é como andar descalço na casa encerada,
pisando firme no chão que escorrega.
Gostar de você é fazer cooper no engarrafamento
Gostar de você é beber fanta-uva e comer acarajé.

Só tem uma diferença:
Gostar de você não machuca os pés, não dói as costas e não dá vontade de arrotar.



1999

Às dez me chegou uma carta.
Dizia a mim: Morres amanhã.
Engraçado que não revoltei.
Desesperei-me em saber: 
- O que fazer até a hora?   
Pensei em lhe ver. Pensava assim Enquanto estava ao seu lado. Engano. 

Atinei para a possibilidade de fugir. Impossível. Para amanhã o mais longe que posso ir é na esquina.
Talvez não haja nada a fazer.
São doze e já não sei.

O que faço até amanhã?
Sem dúvida que morro aos poucos. O faço sempre.
Vou cantar. Passarei as minhas horas cantando. Que sentido?
Mesmo nenhum. Que sentido faz uma sentença por carta?
Cantarei até amanhã, depois morro.


1998

Vim aqui para te fazer um poema,
Um poema como o gôsto do que sinto.
Mas não adiantam as mesmas rimas,
Acredito que não queres mais meu verso.

Acredito também que não adianta,
Não muda nada dizer que te amo.
Porque, das coisas que faço,
Do íntimo universo das coisas que faço,
Meu coração grita pelo teu,
E não te importa que eu seja só.
O que desejas,
Por mais que digas que não,
É gozar desse sentimento,
Saber que querem a tua presença.

Mas, meu bem,
E se ficares também sozinha,
Só, Sola,
O que pretendes fazer?

Eu vim aqui para te fazer um verso,
Um verso com gôsto de carinho.
Quero ir ao mais longínquo porto de tua alma,
Só para dizer que te amo.

A mim, me parece que o dia dará em chuvoso.

[Antes que o sol caia, na tarde de hoje]

2001

Antes que o sol caia, na tarde de hoje, eu devo lhe dizer: eu lhe amo. Devo dizer isso, não sem antes titubear, pensar em desistir e pensar que você não irá ligar a mínima, Essa opção eu não descarto, mas tenho de dizer assim mesmo. Antes disso, de dizer, eu devo lhe perguntar o que há no seu coração que poderá me pôr fora dele. Devo lhe dizer o quanto tenho sofrido desde aquele dia, aquele da tarde. Devo lhe dizer coisas que observo diariamente, os castelos e as masmorras do meu caminho. Lhe falar sobre o meu riso e o meu silêncio, as coisas as canções, as palavras, os sons. O que há de belo e de novo. Antes que o Sol se ponha, hoje, eu devo lhe falar sobre o pulsar mudo dos corpos, sobre a incandescência da vida e o brilho de cada pessoa. Antes de o Sol se pôr, esta tarde, você irá conhecer o universo mais puro, o meu mundo encantado, o meu espaço imaculado. Deverá saber porque é que amo os seus suspiros, porque é que amo os seus passos. Você deverá saber, antes de tudo, que o maior amor do mundo, o amor mais puro e mais vivo, esse amor é seu. Sem qualquer poesia, sem qualquer rodeio, você vai saber que é real. Antes  que o Sol possa se pôr esta tarde, eu devo lhe dizer quanto amor, quanto amor, quanto amor... Eu poderei não dizer, poderei não conduzir o pensamento, poderei não conseguir pronunciar, e , principalmente, poderei não lhe convencer. nesse caso, nesse último caso, antes do Sol se pôr, eu estarei derrotado, totalmente. É certo que isso não importará lá essas coisas, não lhe dirá respeito. Ato contínuo, será o ponto final. Nesse ponto, bella donna, eu paro. Antes de o Sol se pôr, esta tarde, você irá saber: eu lhe amo.

[P.S: suponhamos que seja um poema-carta meta-verídico e que este poeta tenha engasgado antes das quatro da tarde irremediavelmente.] 

Canção do Amor Dormindo


Outubro, 2000

Tua porta fechada - Disseram
Eu nem pude acreditar.
A chuva caindo seca,
sua rua tão pequenina...

Lembrei um samba qualquer,
cantarolando nas poças vazias
vazio o meu coração.

Desci inerte a ladeira
Quanta angústica, meu Deus...
Eu vindo, vindo...

Escrevo aqui essa canção,
tão triste, sem nota alguma,
Para ninar o seu silêncio,
Para dançar de mãos dadas,
Para imitar você dormir

Continua seu sono,
menina,
continua seu sono.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O amor - Vladimir Maiakóvski 

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.